Quando lemos amiúde que a maior riqueza de Portugal está no mar, não fazemos ideia do quanto isso é mesmo verdade. Jaz ao largo da ilha do Faial, no mágico mar dos Açores, a carcaça de um dos navios mais famosos da História de Portugal: o Cinco Chagas.
A sua fama advém da febre que tem gerado entre caçadores de tesouro ao longo da História. Diz-se que, quando naufragou, carregava 1.815 toneladas de um tesouro que incluiria ricas especiarias, ouro, prata, pedras preciosas, tecidos de fino quilate, entre outras riquezas habituais da Carreira da Índia. Cálculos mais ou menos exactos colocam o valor da sua carga na casa dos 20 mil milhões de euros! No entanto, lembramos que a principal razão pela qual nunca ninguém conseguiu encontrar o Cinco Chagas se deve ao local onde foi ao fundo, com uma enorme profundidade que tem impedido sucessivas tentativas de recuperá-lo; e tal deve-se às condições do seu desastre.
A União Ibérica
Estamos em 1594. Quatorze anos antes, em 1580, Dom Filipe I de Espanha consegue por fim anexar o vizinho português, ambição espanhola desde que o nosso país existe num complicado esquema a que hoje chamamos União Ibérica. Portugal é parte de Espanha... mas independente. Com isto, o país pode manter alguma autoridade sobre o seu próprio império colonial, embora Espanha nunca ofereça, de facto, grande apoio militar na protecção do Império Português.
Ora, com a situação da União Ibérica, países como Inglaterra e França pressentiram que esta seria uma óptima altura de lucrar com as riquezas de Portugal de forma indirecta. No final do século XVI, ambos os países não possuíam nada de parecido sequer com um império. Como tal, contornando este problema, criaram um sistema de apoio a empreendedores corajosos que se serviam de pirataria para enriquecer. Ao dar-lhes um documento chamado “carta de corso”, transformavam-nos em corsários que se colocavam ao serviço destes reinos.
Por causa do desvio forçado da “Volta do Mar”, os mares em redor dos Açores eram um dos sítios preferidos para os ataques às embarcações da Índia. De lembrar que o arquipélago fora o último bastião de resistência a Filipe II de Espanha, I de Portugal. Aqui, Dom António, prior do Crato, montou a sua resistência com o apoio dos açorianos que se recusavam a submeter ao “Espanhol”. Por isso, mesmo a seguir a 1581, quando as Cortes de Tomar aceitam que Portugal se inicie no que ficaria conhecido como a Dinastia Filipina, os Açores serão um local de luta permanente entre os fiéis a Espanha e os que ainda resistem. Estes últimos contam com o apoio dos reinos protestantes do Norte da Europa, como Inglaterra e os recém-independentes holandeses, acabados de sair do jugo espanhol. No apoio ao prior do Crato, encontram um pretexto para circularem de forma mais livre pelas águas açorianas.
Dom António, o prior do Crato, exibindo a medalha da Ordem de Avis numa gravura flamenga de 1595. Fonte: The British Museum© EM DOMÍNIO PÚBLICOA Inglaterra nos mares dos Açores
Embora a Terceira caia em 1583, acabando com quaisquer esperanças que Dom António teria de ocupar o trono português, os corsários passam esta década em investidas permanentes aos portos e embarcações portuguesas. Em 1587, Francis Drake captura a nau São Filipe. No mesmo ano, corsários ingleses atacam a ilha das Flores; em 1589, os ingleses atacam a cidade da Horta, no Faial; e em 1592, a Madre de Deus, outra nau portuguesa, é também capturada. Este é um evento importante que deverá ter aumentado a ambição inglesa.
A Madre de Deus era o maior navio do mundo no seu tempo, um imenso gigante de 1.600 toneladas de calado. 50 metros de comprimento. 14,5 metros de largura. Uma tripulação de 600 a 700 homens. Foi uma captura tão impressionante que os corsários quebraram a regra habitual de afundar, depois de lhes roubar a carga, todos os barcos que eram atacados. Transportaram-na para Inglaterra e quando esta chegou à cidade de Dartmouth, concluíram que tinha o triplo do tamanho da maior embarcação inglesa. A riqueza que transportava era tão grande que os corsários, sucumbindo à ganância, se recusaram a dar o devido quinhão à coroa inglesa que só apoiava. A rainha Isabel I foi obrigada a enviar Walter Raleigh para pôr ordem no navio, mas quando este chegou, apenas um quarto da carga sobrava.
Esta representação da Nau da Carreira da Índia Madre de Deus, da autoria de António Marques da Silva e Ferdinando Oliveira Simões, está exposta na Sala dos Descobrimentos do Museu de Marinha, em Lisboa. A embarcação original foi construída na Ribeira das Naus em 1589 e atacada cerca de cinco anos depois ao largo da Ilha das Flores por corsários ingleses. © MUSEU DA MARINHAUma batalha heróica... um barco perdido
É na obra do misterioso Melchior do Amaral, eborense cuja vida só se conhece a partir dos relatos que deixou de combates entre os navios portugueses, holandeses e ingleses, que encontramos os pormenores da desgraça. Tentando atracar sem sucesso no Corvo devido aos ventos contrários, o Cinco Chagas dirigiu-se então ao Faial e é no estreito entre esta ilha e a do Pico que é abordado pelos três navios ingleses. Os combates de 22 e 23 de Junho não correram de feição aos ingleses. Um dos navios foi obrigado a retirar-se por ter grandes danos e as outras duas não conseguiam afectar de forma decisiva a titânica carraca, para além de sofrerem também estragos consideráveis. A meio do dia 23, duas tentativas de abordagem ao bordo da Cinco Chagas falharam redondamente, sendo que numa delas um comandante inglês levou com um tiro de mosquete e faleceu.
No meio desta troca de tiros e balas de canhão, as embarcações em contenda eram pasto de chamas, escolhos de labaredas no mar revolto. Sendo mais pequenos e batendo em retirada, os navios da Velha Albion conseguiram extinguir os seus incêndios. O gigante português não teve tanta sorte: as chamas descontroladas consumiram a carraca, sem que ninguém as pudesse controlar, atiraram-se ao mar sem outra solução possível.
Os seus inimigos, ao ver isto e feridos no orgulho britânico (não só por não terem vencido, mas também por regressarem de mãos a abanar de dois dias intensos), colocaram embarcações pequenas ao mar com o objectivo de matarem qualquer sobrevivente. Dos mais de 400 tripulantes, que incluíam mulheres, crianças e escravos, sobreviveram 13 pessoas, uma delas, um grumete, por ter consigo pedras preciosas que deu aos ingleses, evitando ser assassinado na água. Ao anoitecer, o incêndio deverá ter atingido o paiol de pólvora do Cinco Chagas, pois este explodiu com estrondo. Quem estava a bordo ainda, morreu certamente e a enorme carcaça desceu lentamente ao fundo dos oceanos, onde nunca mais foi encontrada.
Alonso de Bazán acabou por nunca apanhar Cumberland, mas o britânico não ficou a rir-se pois apenas regressou a Inglaterra com dois prisioneiros, dois nobres portugueses, pelos quais pediu um resgate, mas muito aquém do que lhe custou armar o trio de embarcações. Calcula-se que o que resta do Cinco Chagas, e da sua riqueza, esteja algures a 18 milhas náuticas a sul do canal entre Pico e Faial, mas nunca ninguém encontrou qualquer sinal da sua carcaça.












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