Prossigo hoje com outra das coisas que não nos dizem, que também abordei na AG e é a quebra abrupta da força e do prestígio internacional do FC Porto. PdC entregou o FC Porto em 18º lugar do ranking da UEFA e qualificado para o Mundial de Clubes (mais os 18,6 milhões de euros de receita). O que aconteceu depois disso foi uma participação vergonhosa, sem uma única vitória, no Mundial de Clubes e a queda para o 28.º lugar no ranking da UEFA e a primeira vez desde 1977/78 que estamos na terceira posição entre as equipas nacionais.
Na AG de ontem tive duas intervenções. A primeira, apelando ao presidente Villas-Boas para deixar de contribuir para o divisionismo e que já comentei em tweet anterior. A segunda, foi sobre o que não nos dizem, até por contraponto com o que dizem sobre os antecessores. Porque no discurso oral é sempre mais difícil de comprovar, vou deixar aqui os dados que apresentei na AG e que se baseiam exclusivamente em números publicados pela atual direção.
Dizem que o Sistema Nacional de Saúde foi obra do 25 de Abril, pergunto, como assim, se foi exactamente o Estado Novo de Salazar quem o implementou, não seria mais honesto dizer que passam quatro décadas sobre a data da entrega dos serviços de saúde à iniciativa privada e interesses da maçonaria?
Há duas semanas, José MAUrinho, num raro momento de lucidez pública, decidiu dar uma lição de maturidade. Falava de Luís Pinto, jovem treinador do Vitória , e disse, com ar de veterano iluminado:
O presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) emitiu um comunicado para esclarecer uma polémica levantada pelo diretor de comunicação do FC Porto no Porto Canal.
Francisco J. Marques apresentou e-mails trocados por Luciano Gonçalves e responsáveis do corrupto benfica a pedir bilhetes para um jogo no Estádio da Luz a um preço mais baixo, que seriam oferecidos ao Centro Recreativo de Alcanadas.
O presidente da APAF em comunicado esclareceu a situação dizendo que agiu na condição de Presidente da Mesa da Assembleia Geral dessa coletividade, da qual é sócio desde 1990.
Luciano Gonçalves refere que este procedimento é «igual a muitos outros» que dirigem a «diversas coletividades desportivas, sociais, recreativas.»
O dirigente explica ainda que reagiu porque viu serem levantadas «suspeitas sobre a integridade e isenção profissional» e sentiu a necessidade de se defender.
Leia o comunicado na íntegra:
«Tendo em conta algumas notícias vindas a público, que sinto visarem-me parcialmente, julgo que se impõe agora, um esclarecimento firme e definitivo sobre essa matéria.
Desde 1990 (há vinte e sete anos) que sou sócio do Centro Recreativo de Alcanadas. Atualmente desempenho a função de Presidente da Mesa da Assembleia Geral dessa coletividade.
Apesar das naturais limitações, a que este tipo de Associações estão sujeitas, lutamos todos os dias para construir um futuro melhor para os mais novos, procurando igualmente oferecer qualidade de vida aos mais idosos.
Foi numa dessas (muitas) iniciativas que, enquanto Presidente da AG e através do meu email pessoal, procurei efetuar a compra de bilhetes para um evento desportivo, há muito pedido e desejado pela esmagadora maioria dos nossos sócios (mais de quinhentos).
Esse procedimento, é igual a muitos outros que dirigimos a diversas coletividades desportivas, sociais, recreativas, etc.
A ida a um evento de grandeza nacional, representa para muitos dos nossos associados, a oportunidade - tantas vezes rara na vida - de poderem usufruir de um momento marcante e memorável.
Na boa fé, com que sempre pautei a minha conduta, pessoal e profissional, negligenciei momentaneamente, o facto de que o futebol português tem sido, por estes dias, um local feio para estar.
Percebo o alcance que se pretende com estas manobras de diversão, numa fase crítica do campeonato, mas não admito - e nunca admitirei - ser usado como arma de arremesso, numa guerra que não é minha nem da arbitragem portuguesa!
Sou independente! Tenho muitos anos no sector, vários como Presidente de Núcleo de Árbitros de Futebol de Porto de Mós, e outros tantos como dirigente da APAF.
Que fique bem claro, para todos: não sirvo interesses de ninguém e tenho uma única missão, que cumpro com a máxima verticalidade: Servir a Arbitragem e os Árbitros de Futebol em Portugal!
Manterei a minha/nossa abertura de diálogo com todos os agentes desportivos (FPF, Liga Portugal, clubes, treinadores e jogadores), sempre no sentido de construir melhorias para o futebol em geral, e para a Arbitragem, em particular!
Não voltarei a permitir, que levantem suspeitas sobre a minha integridade e isenção profissional!
As manobras de bastidores, que fiquem para quem as pratica. Deixem-nos fazer o nosso trabalho, sem nos arrastar para esse lamaçal!»
(*) Opinião de Ricardo Nascimento, in O JOGO, aqui
Há histórias que pedem banda sonora. Esta, por exemplo, devia começar com o genérico de uma sitcom dos anos 90. Um balneário, um árbitro a beber água, um televisor que não se desliga e um clube acusado de "tentativa de coação". Riso enlatado. Fade out. Entra o genérico.
Sim, o relatório de Fábio Veríssimo descreve que, no intervalo do jogo, havia um televisor a mostrar repetição de um lance que arbitrou. E que o árbitro não conseguia desligá-lo. Confesso: já vi episódios do Black Mirror com enredos menos surreais. Por falar em surrealismo, convém lembrar que é o mesmo árbitro que, em 2019, depois de um Benfica-FC Porto polémico, reconheceu "não estar num bom momento" e pediu dispensa por tempo indeterminado. O problema é que agora tudo isto é tratado como uma questão de direito disciplinar, matéria que me interessa, porquanto dou aulas de direito desportivo.
Vejamos, juridicamente falando (e prometo que não vos adormeço), o artigo 66.º do Regulamento Disciplinar das Competições Organizadas pela LPFP, que fala em "coação". Mas coação, em termos jurídicos, é coisa muito séria. Exige intenção, constrangimento e, sobretudo, que o árbitro faça mesmo algo porque foi coagido. Não basta a "tentativa de pressão". Ora, um televisor teimoso não é, ainda, um instrumento de tortura psicológica. Na pior das hipóteses, estamos perante um crime de abuso de eletrónica doméstica, previsto no Código Penal do Bom Senso. Não consta que Veríssimo tenha sido amarrado com cabos HDMI, nem que o VAR tenha enviado sinais subliminares tipo "valida o golo ou o plasma explode".
Se formos rigorosos, o mais que pode haver aqui é uma infração leve ao dever de hospitalidade. Uma multa, talvez uma repreensão, ou um "aviso para futuro comportamento televisivo adequado". Mas perda de pontos? Só se a televisão tivesse distorcido a realidade mais do que alguns relatórios disciplinares. Aliás, a própria noção de "tentativa de coação" aplicada ao futebol português tem um sabor literário. É como dizer que o barbeiro de Farioli tentou influenciar a tática com o penteado. Ou que o apanha-bolas ameaçou o árbitro com uma bola medicinal.
A realidade é esta: a figura jurídica da coação pressupõe uma ligação causal entre o ato e a decisão do árbitro. E, salvo prova de que Fábio Veríssimo tenha voltado do intervalo decidido a compensar o protagonista do ecrã, o caso dificilmente passará de curiosidade regulamentar.
O futebol português adora grandes causas - mesmo quando o caso é pequeno. Transforma um televisor em metáfora e uma ficha elétrica em ato subversivo. No fundo, somos um país que vê mais emoção num botão "ON/OFF" do que num fora-de-jogo milimétrico. E, quem sabe, este episódio sirva para algo útil: inspirar uma nova categoria jurídica, entre a coação e a comédia. Podíamos chamá-la "coação estética". Um conceito que abrange tudo o que é feio, exagerado ou simplesmente inútil - como alguns comunicados oficiais. Se isto é coação, então somos todos culpados: quando vemos futebol na televisão, passamos a vida a gritar-lhe, e ela, impassível, continua sem se sentir pressionada.
Durante o intervalo recente, o Fábio Veríssimo foi confrontado com imagens de lances idênticos, todos com decisões diferentes, e sempre a pender para o mesmo lado, ou seja, contra o FCPorto. Ao ver-se exposto à sua própria incoerência, sentiu-se “coagido”. Não por pressões externas, mas por ser confrontado com a sua própria falta de qualidade. A consciência, por vezes, dói mais do que qualquer grito vindo das bancadas.
