O audaz FC Famalicão teve a imprudência de marcar um golo. Um gesto quase revolucionário. O problema? Antes da bola entrar, dois jogadores disputaram-na. Contacto. Intensidade. Futebol em estado bruto. Felizmente, o VAR estava atento ao que realmente importa: partículas de contacto subatómico.
A falta foi invisível ao olho humano. Invisível ao árbitro. Invisível aos jogadores. Invisível ao estádio inteiro. Invisível até à Sport TV. Mas não invisível à lente omnisciente que, após sucessivas repetições em câmara lenta, conseguiu captar a vibração indevida de uma molécula competitiva. Um fenómeno digno do CERN ou do Fermi Lab: o toque existia e não existia ao mesmo tempo, até que a observação o fez colapsar numa infracção inequívoca. A verdade desportiva entrou definitivamente na era da física quântica em que o contacto só é falta quando alguém com acesso a todas as 12 dimensões do espaço decide que é.
Felizmente, o VAR, essa ferramenta criada para corrigir erros claros e evidentes, estava preparado para a verdadeira missão: descobrir faltas quânticas. Não aquelas que o árbitro falha por distracção, nem as que geram protestos imediatos. Não. Faltas que vivem numa dimensão paralela, invisíveis ao olho humano, detectáveis apenas após sucessivas repetições em câmara lenta e ampliação máxima e, presume-se, após consulta a um Nobel da Física.
E assim se restaurou a ordem natural das coisas.
Na capital, a comunicação social celebra a epopeia. O glorioso SCP voltou a provar que a mística evolui. Daniel Bragança saiu do banco aos 74 minutos e, de cabeça — gesto técnico quase herético para um médio — fez o golo solitário antes dos 90 minutos. Antes. Uma inovação estratégica que demonstra que já não é necessário esperar pelos descontos para cumprir o destino escrito nas estrelas.
Curiosamente, o FC Famalicão não se insurgiu contra apanha-bolas excessivamente diligentes, nem contra correntes de ar suspeitas, nem contra o ar condicionado com inclinação táctica. Também não denunciou a sofisticada decoração motivacional composta por manchetes de jornais estrategicamente afixadas nos balneários e corredores de acesso ao relvado, cuidadosamente seleccionadas para inspirar epopeias e consolidar destinos. Não. O FC Famalicão, ingrato, limitou-se a queixar-se de um singelo pormenor: um golo anulado por uma falta invisível ao olho humano, um detalhe insignificante que resultou na alteração do marcador.
A narrativa ficou pronta: superação, mística, banco inspirado, espírito de campeão. Quanto ao golo anulado ao FC Famalicão? Um detalhe técnico. Um rodapé. Uma nota de arbitragem que, por coincidência cósmica, reposicionou o marcador na harmonia desejada.
E assim aprendemos que o VAR não é apenas tecnologia. É filosofia. Não procura o erro flagrante — procura a singularidade quântica. Porque no futebol moderno não basta jogar melhor. É preciso também não cometer faltas invisíveis.
Texto magnífico de um seguidor do Portal dos Dragões, Paulo Sanabria








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