Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Crónica ocasional: os falhados


Se falhamos tantas vezes como povo é porque não sabemos falhar como indivíduos. Falhar – e saber falhar – é indispensável ao sucesso.

Em Portugal falha-se mal. Falha-se muito, mas nisso não somos nem melhores nem piores do que os outros povos. É natural falhar. Mas falha-se mal. Não sabemos falhar.
Um português que falhe, no casamento, num negócio, numa relação, num emprego, tem de imediato direito a ser considerado um falhado. Pior: acha-se um falhado.
Um português que falha fica deprimido. Não é uma verdadeira depressão, mas uma espécie de vergonha escondida, tentativa de se esconder do julgamento dos outros, da sentença que, inevitável, julga ler nos seus olhos: Falhado.

Ao longo dos séculos, são largos os períodos de dificuldades vividos pelos portugueses, neste pequeno país à beira mar plantado. Períodos de depressão, de perda acelerada de auto-estima, de atraso económico e anomia social. Períodos em que, como soe dizer-se e Camões disse, os fracos reis “fizeram fraca a forte gente”. Mas será só isso? A culpa é só “deles”?

Não creio: se falhamos tantas vezes como povo é porque não sabemos falhar como indivíduos. Falhar – e saber falhar – é indispensável ao sucesso. Ora nós, portugueses, orientados como estamos para considerar cada acto da vida como um exame definitivo às nossas capacidades (à soma delas), se falhamos, pensamos nós (e sempre no-lo disseram ou sugeriram), é porque as nossas capacidades não estão à altura de cada um desses actos, não apenas nesse momento preciso, mas também “nunc et semper”: agora e para sempre.

Se falhamos, em suma, é porque não temos capacidades. Nunca seremos na vida mais do que lesmas gordas que se arrastam sem fim nem propósito, recolhendo no caminho os detritos sobrantes destinados aos falhados. Falhar uma vez é falhar sempre. E para sempre. O que é uma mentira. Se acreditarmos nela seremos de facto falhados, mas se a rejeitarmos, se fizermos troça dela, então podemos falhar – e ficar um passo mais perto do sucesso.

Uma mulher formou-se em comunicação na Universidade de Tennessee; depois foi contratada por uma estação local de televisão onde apresentou as notícias. Não correu bem: despediram-na por ser “incapaz para televisão”. Falhada! Ainda bem que Oprah Winfrey não é portuguesa. E se eu vos contar a história de outra mulher, que viveu e se casou em Portugal e aqui se divorciou, sem dinheiro, sem emprego, com uma filha para criar? Falhada? Regressou ao seu país imbuída do “falhadismo” lusitano, convicta de estar condenada a uma vida de dificuldades e horizontes estreitos. Mas perseverou. De Edimburgo enviou um manuscrito de um livro de fantasia que escrevera para 12 editoras. Todas o rejeitaram. Falhada à dúzia? Não há magia que explique o improvável sucesso de Harry Potter, salvo a capacidade de uma mulher para resistir ao anátema, auto e hetero infligido, do falhanço tantas vezes repetido. Magia? Não. Saber falhar.

Falhar é inevitável. O falhanço é o professor que a vida nos põe no caminho. Sem falhar dificilmente saberemos como chegar ao sucesso. Alguém disse (não consigo recordar-me de quem nem das palavras exactas): falhem, continuem a falhar, mas tentem falhar um bocadinho melhor da próxima vez. Será que se J. K. Rolling se tivesse mantido mediocremente feliz no seu reduto marital do Porto, Voldemort teria emergido das trevas?
Ninguém gosta de falhar. Mas falhar bem é crucial. E só falha quem arrisca. Risco que é uma palavra própria da modernidade, pelo menos na sua conceptualidade associada a decisões tomadas em condições de incerteza sobre a possibilidade de consequências negativas. As minhas escolhas, nessas condições, confrontam-se com a contingência das opções, que podem ser as que escolhi ou outras, existindo sempre a possibilidade da escolha efectuada não resultar. Correr o risco dessa possibilidade, considerando as opções, não é coragem mas sabedoria. E é o contrário do medo.

Opto por me casar com uma determinada mulher em detrimento de todas as outras possibilidades, ou de nenhuma, consciente do risco: pode correr mal. Ou opto por um negócio em que invisto as minhas economias, ciente de que pode correr mal. Ou ainda, escrevo um livro sobre uma rapariga com poderes telecinéticos que, humilhada na escola, se vinga com violência das colegas, escolhendo esse esotérico tema em vez de uma história romântica, consciente de que pode correr mal (foi o que fez Stephen King com Carrie, a sua primeira novela, que antes de ser publicada foi rejeitada 30 vezes).

A vida é uma montanha-russa: “ups and downs”, altos e baixos, “ups and downs”. Para subir, temos de descer. Voltar a subir, voltar a descer, subir de novo. Meia dúzia de ensinamentos tirados da boca de empresários pelo Huffington Post: aceitem os falhanços de braços abertos; dos erros surgirão novas oportunidades; encarem os falhanços como simples erros; amanhã é sempre outro dia; o sucesso não é a ordem natural das coisas; nada é tão mau como parece; a pior decisão é a indecisão.

Temos pois, neste nosso país florido e belo, de encarar de outra forma o falhanço. Ter sucesso é como subir uma escada: não se chega ao topo sem superar cada degrau, que são os erros que nos permitem subir. Falhar é aprender com os erros. É conhecimento. É experiência. Mas falhar bem implica sobretudo perseverar; não temer o risco; não desistir. Nunca desistir.

E sabem quem mais falhou no início? Bill Gates. Walt Disney. Henry Ford. E eu e tu e nós e vós e eles. Aos jovens portugueses, corajosos empreendedores, recomendo que, simplesmente, acreditem. Que assumam o risco. Que se preparem para o sucesso tendo consciência clara do que buscam (recomendo o excelente artigo neste jornal a esse respeito), dos obstáculos, e não temam o falhanço. Que perseverem. Que aprendam com os seus (inevitáveis) erros.

Aos portugueses em geral, nos negócios, na vida, humildemente recomendo a voz bem portuguesa de Villaret a dizer, na tradução de Félix Bermudes, o “If” de Kipling: 
“… Se podes crer em ti com toda a força de alma/Quando ninguém te crê/… Se podes esperar sem fatigar a esperança… Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho/…Se podes encarar com indiferença igual/O triunfo e a derrota, eternos impostores/…Se podes ver por terra as obras que fizeste,/Vaiadas por malsins, desorientando o povo,/E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,/Voltares ao princípio, a construir de novo/… Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,/Só exista a vontade a comandar avante/…Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!/…Sem receares jamais que os erros te retomem,/… Alegra-te, meu filho, então serás um homem!…”

Pensemos nisto, pensemos em tudo isto, sempre que a vida, a sorte, o destino, a crise nos forem nefastas. Não há falhados, só falhanços.
A pior decisão é a indecisão.

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