Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

A vida do Batalha dava mesmo um filme

O quarto ano do ciclo Um Objecto e Seus Discursos começou com um recorde de audiência, com mais de 600 pessoas a assistirem à conversa em torno do Batalha. Rui Moreira contou como foram as conversar com Júlio Pomar para recuperar os frescos censurados pela PIDE e Alexandre Alves Costa contou a história do cinema para explicar como vai recuperá-lo, agora que a Câmara do Porto se prepara para o devolver à cidade.



Foi um dos maiores ícones do Porto que abriu, neste sábado, a nova temporada do projecto cultural "Um Objecto e Seus Discursos por Semana". Ainda antes de ser recuperado para voltar a viver cinema, o "Batalha" abriu as portas neste sábado para encher a plateia de gente que continua a considerar como "sua" esta sala de expressão artística de cariz modernista e quis revisitar memórias a pretexto do programa cultural "Um Objecto e Seus Discursos por Semana".

Com emoção e curiosidade, o público visitou todos os recantos da velha casa de cinema, desde a sala de projecção à antiga sala de chá, depois de uma tertúlia que teve como protagonistas o presidente da câmara, Rui Moreira, o arquitecto Alexandre Alves Costa, cuja equipa está "já a trabalhar no projecto de recuperação" - como revelou - e Sara Antónia Matos, directora do Atelier-Museu Júlio Pomar e em representação do próprio artista. Este, aliás, acedeu já em colaborar na recuperação dos frescos da sua autoria que constituem um dos ex-libris do edifício, mas foram destruídos logo por altura da inauguração, em 1947, a mando do estado pidesco.

Contudo, se estão prestes a completar-se 70 anos sobre o nascimento do "Batalha", o revivalismo não tomou conta da sala, antes servindo como fundo de memória para abrir a janela de esperança sobre o que aguarda ainda o velho cinema, que entra agora no terceiro capítulo da sua história, a qual bem pode dar um filme. Ou mesmo três. 

O apogeu foi vivido em meados do século XX, quando várias gerações de portuenses marcaram o ritmo semanal com a ida ao Cinema Batalha e fizeram dele um símbolo da cidade. Para isso concorreu também o arquitecto Artur Andrade, autor do projecto original e que Alexandre Alves Costa comparou com Arménio Losa e Viana de Lima, em jeito de elogio, para considerar que "o projecto do Batalha é o paradigma da nova arquitectura".

Logo por alturas da sua abertura, a perseguição das autoridades obrigou à destruição dos frescos de Júlio Pomar (preso pela PIDE antes mesmo de os ter terminado), à ferida do baixo relevo da entrada e, até, à mudança dos puxadores de portas, exemplificaram os convidados desta sessão inaugural de "Um Objeto e Seus Discursos por Semana". A propósito, foi também recordado que Júlio Pomar tinha somente 20 anos quando houve "a audácia de o convidar e ele teve a audácia destemperada de se propor aceitar" participar na obra, como o próprio Mestre disse em tempos numa entrevista a Helena Vaz da Silva.

Após décadas que lhe conferiram um lugar de destaque no panorama social, cultural, político e arquitetónico portuense, e não só, o Cinema Batalha entreou em declínio, acompanhando idêntico processo por que passaram outros cinemas da cidade no final do século e tornando-se alvo das malfeitorias do tempo e dos vândalos.

Mas o início de uma nova era acaba de surgir para este "objecto primordial da cidade", como sublinhou Rui Moreira. A escolha do local para a sessão deste sábado aconteceu poucas semanas após a Câmara do Porto ter anunciado o acordo conseguido para reabilitar o edifício e devolvê-lo à sua utilização original, o que tornou ainda mais simbólica a inauguração do novo ciclo de conversas em torno do património material e imaterial da cidade.

Até Dezembro, um total de 31 locais serão palco de conversas sobre a história e as histórias do Porto, no âmbito de "Um Objecto e Seus Discursos por Semana", contando para isso com mais de 90 convidados, sempre aos sábados pelas 18 horas.

O próximo, já a 11 de Março, é o Seminário Maior e tem como ponto de partida o volume com as Constituições Sinodais dos Bispado do Porto, que foi o primeiro livro impresso no Porto. Caberá então ao actual Bispo da Diocese, D. António Francisco dos Santos, moderar a conversa com Luís Carlos Amaral, historiador sobre a Igreja portuguesa na Idade Média, e Maria de Lurdes Correia Fernandes, especialista em História das Práticas Religiosas. [daqui]

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