Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Apito Encravado, por Miguel de Sousa Tavares

Se Maria José Morgado estiver realmente interessada em apurar o que se passa nesse mundo submerso das transacções com jogadores, não deve haver clube ou presidente algum que não mereça ser investigado. E devia fazê-lo, porque, de outro modo, fica a suspeita de que este é apenas um processo «ad hominem», a caça a um homem só.
1- Aquele a que chamam o «processo-mãe» do «Apito Dourado» chegou finalmente a julgamento. É coisa pouca para tanto estardalhaço feito: trata-se de tentar provar que o Gondomar, com a colaboração de Pinto de Sousa, ex-presidente da Comissão de Arbitragem, e o alto patrocínio de Valentim Loureiro, ex-presidente da Liga, passou uma época inteira a escolher os árbitros que queria para os seus jogos e a presenteá-los depois com «recordações» em ouro. Uma história de pilha-galinhas. Como toda gente percebeu desde o princípio, não era aqui que se queria chegar com o «Apito Dourado»: queria-se chegar a Pinto da Costa e ao FC Porto e fazer prova «científica» de que foi a corrupção de árbitros que transformou o FC Porto na potência futebolística que hoje é.
Milhares de diligências processuais, de interrogatórios a testemunhas e de perícias feitas, milhares e milhares de euros depois, parece bem que ao desígnio traçado para o «Apito Dourado» nada mais resta do que as acusações de Carolina Salgado. Mais uma vez, é pouco, muito pouco, quando tudo assenta na credibilidade de uma testemunha cujo curriculum só regista dois factos notáveis: ter trabalhado numa casa de alterne e ter gasto os últimos anos a vingar-se do homem que de lá a tirou, a levou ao Papa e a entronizou no inadmissível estatuto de «Primeira Dama» do FCP, e que depois a deixou. Como já aqui o escrevi, qualquer advogado estagiário tem obrigação de estilhaçar as acusações em tribunal.
Não admira pois, que, conforme relatava ontem o «Público», o «dream team» de Maria José Morgado tenha, de há vários meses para cá, reorientado as suas investigações, com base em novas denúncias de Carolina Salgado. Trata-se agora de passar à lupa todas as operações financeiras que envolveram a compra e venda de jogadores do FC Porto nos últimos anos e que tiveram a intervenção de Pinto da Costa. Parece-me campo bem mais promissor: eu próprio já frequentemente manifestei a minha estranheza perante tantas e tantas aquisições de jogadores e uma situação financeira que não se percebe que não seja desafogada, de 2004 para cá. Mas isso, como também toda a gente sabe, está longe, muito longe, de levantar dúvidas apenas em relação a Pinto da Costa e ao FC Porto. Se Maria José Morgado estiver realmente interessada em apurar o que se passa nesse mundo submerso das transacções com jogadores, não deve haver clube ou presidente algum que não mereça ser investigado. E devia fazê-lo, porque, de outro modo, fica a suspeita de que este é apenas um processo «ad hominem», a caça a um homem só: se não o apanham por um lado, tentam por outro. E todos os outros passam impunes.

2- Entretanto, das célebres «revelações» do «livro» de Carolina Salgado, uma havia que parecia a mais fácil e mais urgente de investigar: a de que fora ela própria, por inspiração de Pinto da Costa, quem organizara e comandara o pelotão de linchamento que agrediu violentamente o vereador de Gondomar, Ricardo Bexiga. Era fácil de investigar porque, inadvertidamente, a testemunha fatal se incriminara a si própria, na ânsia de incriminar Pinto da Costa; e urgente, porque se tratava do mais grave dos crimes arrolados em todo o processo. É verdade que, ao entrar nos detalhes da operação, a história dela começava logo a não bater certa: disse que, por precaução, haviam destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde a agressão teve lugar, mas não teve o cuidado de confirmar se o parque tinha câmaras de vigilância — não tinha. Mas, mesmo que desta mentira circunstancial resultasse a crença na mentira de toda a história, não se compreende como é que o Ministério Público não a acusou por crime de falsas declarações e denúncia caluniosa.
Pelo contrário, o Ministério Público, escudando-se na falta de provas, acaba de determinar o arquivamento do processo. Ou seja: a testemunha-chave do Ministério Público merece credibilidade quando acusa Pinto da Costa, mas já não a merece quando se acusa a si própria. E assim se resolve o problema de poder manter como testemunha-chave alguém que deveria figurar como arguida num outro processo e por crime mais grave.
3- Lá se jogaram os oitavos-de-final da Taça e sem tomba-gigantes. Também não é fácil quando, com uma regularidade impressionante, os clubes maiores têm a sorte de receber os mais pequenos numa eliminatória a um só jogo. O Benfica, então, é um caso à parte: não me lembro da última vez e em que época é que o Benfica teve de jogar fora da Luz para a Taça. Nas últimas doze eliminatórias disputadas, tal não deve ter acontecido mais do que uma ou duas vezes.
Não acho justo que o caminho para o Jamor possa depender apenas ou principalmente da sorte, seja quem for o contemplado. Há anos que defendo que até aos quartos-de-final as eliminatórias deveriam jogar-se apenas a uma mão mas sempre no campo do clube de divisão inferior ou do de pior classificação actual na mesma divisão; e a duas mãos os quartos e meias. Agora, o presidente da Liga pretende, pelo menos, meia coisa: os quartos e as meias a duas mãos. Acho excelente ideia, de justiça e interesse desportivo acrescido. Já vi um treinador queixar-se de que isso, mais a Taça da Liga, são jogos a mais. Jogos a mais? Então a Taça da Liga não foi inventada exactamente porque havia jogos a menos?
4- O Benfica é um clube profundamente sebastiânico. Os seus adeptos vivem na eterna esperança de ver chegar um D. Sebastião (de preferência, chamado Eusébio), que, por si só e em golpes de magia, seja capaz de acordar a grande nação vermelha há longo tempo adormecida. Sucedem-se os anunciados salvadores mas a neblina não se deixa romper. Só nos últimos tempos, foram sucessivamente o Mantorras (que valeria 100 milhões de euros, segundo Vieira), o Freddy Adu, potencial novo Pélé (comprado por um ou dois milhões de euros ?!), e agora é o Makukula, que faz lembrar o Eusébio a rematar.
Há três coisas elementares que, pelos vistos, custam muito a interiorizar. A primeira é que um Eusébio aparece de vinte em vinte anos e nada garante que venha para o futebol português, quando os grandes clubes mundiais já fazem prospecção directa nas fontes (veja-se o Manucho no Manchester United); segunda, que se um novo Eusébio aparecer por cá, não dura muito (veja-se o Ronaldo no Manchester United); e terceiro que, nos tempos de hoje, se bem que os génios continuem, como sempre, a resolver jogos, nenhum clube se consegue manter duradoramente no topo se tudo o resto — a organização interna, as estruturas de apoio, as escolas do clube, os treinadores, a equipa e o espírito de vitória e de sacrifício — não acompanharem.
Ainda na passada sexta-feira, aqui na «BOLA», o ex-benfiquista e ex-portista Iuran explicava as diferenças fundamentais que encontrou num clube e no outro e que, em sua opinião, fazem do FC Porto o crónico campeão português. É certo que o Iuran não foi um jogador por aí além nem um exemplo de virtudes fora do campo. Mas o que interessa notar é que ele é apenas mais um dos inúmeros jogadores e treinadores que, tendo passado por ambos os clubes, disseram o mesmo que ele. E nunca ouvi ninguém a dizer o contrário…