Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Miguel Sousa Tavares - Cenas do primeiro capítulo


‘Nortada' do Miguel Sousa Tavares

1 - Arrancou o campeonato e, segundo deduzi da leitura de A BOLA de ontem, prepara-se já a primeira chicotada da época e no Benfica. As próximas horas (talvez já quando este texto sair) revelarão se o despedimento de Fernando Santos é uma notícia confirmada, um desejo do seu autor ou ambas as coisas.

Fernando Santos é crucificado por ser o elo mais fraco da cadeia e o mais fácil de servir como bode expiatório. Não vou discutir se ele é ou não bom treinador — isso é, sobretudo, uma questão subjectiva e que não seria elegante abordar agora. O que sei é que há uns vinte anos que os treinadores do Benfica pagam pelos desejos eternamente adiados de regresso aos gloriosos tempos do Glorioso. Mas, nesses vinte anos, também não vi que o Benfica tenha tido um único presidente à altura dessa tarefa. Se agora, por exempo, é só o futebol que falha, e a nível da equipa profissional, cabe perguntar em que outro escalão do futebol é que o Benfica foi campeão na época que passou ou em que outra modalidade desportiva foi campeão? Em nenhum e em nenhuma. Donde, todos os treinadores do Benfica são incompetentes e só a Direcção está acima de qualquer crítica. A verdade é que, nos clubes portugueses, e não apenas no Benfica, só há duas espécies de amovíveis: os treinadores e os bons jogadores — que vão e vêm ao sabor das circunstâncias e das oportunidades. Já os presidentes e os maus jogadores, esses, não há quem os remova.

Fernando Santos foi aposta pessoal de Luís Filipe Vieira. José Veiga também e, segundo nos informaram, foi ele quem escolheu os reforços para esta época. Com muita publicidade a ajudar, convenceram os benfiquistas de que, como disse Vieira, esta era «a melhor equipa da década». Isso permitiu a Vieira vender o Simão (que estava para o Benfica como o Quaresma está para o Porto) por 20 milhões, depois de ter jurado que só vendia por 25. Permitiu-lhe vender o Manuel Fernandes no próprio dia do jogo decisivo da Champions, depois de ter garantido que não o vendia e apresentar em troca o Freddy Adu — o «novo Eusébio», um suposto «fenómeno» cobiçado por Manchester, Arsenal e Chelsea, e que o génio de Veiga permitiu comprar pela pechincha de 1,5 milhões de euros. Assim decretado que esta era uma equipa de sonho, restava esperar pelo espectáculo e resultados correspondentes. Como eles não apareceram logo, a culpa só pode ser do treinador, pois que, por definição, o presidente é infalível.

Não há nada como governar sem crítica nem escrutínio. Que o diga Pinto da Costa. E que o diga Luís Filipe Vieira, que conta com 80 por cento da imprensa desportiva eternamente a incensá-lo, promovê-lo e absolvê-lo de todas as asneiras cometidas, num exercício diário de bajulação e subserviência que não abona nada a corporação dos jornalistas desportivos.

2 - Um FC Porto transfigurado para melhor em relação ao da Supertaça, venceu com categoria, vontade e toda a justiça do mundo o difícil jogo de estreia em Braga. Eu esperava mais do Braga e menos do Porto, mas felizmente sucedeu o contrário. Desculpem-me a imodéstia, mas sinto-me um bocadinho responsável pela vitória: de há três anos para cá, tenho-me batido incansavelmente em defesa de Ricardo Quaresma e para que o clube o não venda. Começei a fazê-lo ainda quando Co Adriaanse, com o apoio generalizado da crítica, o remetia ao banco de suplentes, com a justificação de que ele «não defendia». Depois de uma época em que Quaresma foi responsável por 50 por cento das assistências para golo, ei-lo que começa esta arrancando sozinho com a vitória em Braga. Depois das vendas de Pepe e de Anderson, se o venderem também, se lhe partirem uma perna ou se o CD da Liga voltar a tomá-lo de ponta, a equipa encosta. Por mais que Jesualdo fale no «colectivo», que até se portou muito bem em Braga.

3 - A suspensão de Lisandro López pelo CD da Federação é um caso de total falta de vergonha e um aparente prenúncio de que este vai ser mais um ano a pagar a factura do Apito Dourado. Que venha esse julgamento e depressa, para que sejam restabelecidas as condições de igualdade na disputa das competições!

4 - E, por falar em Apito Dourado, vou dizer uma coisa que ninguém, na barricada oposta, seria capaz de dizer, em sentido contrário: cheira-me que o tal relatório anónimo baptizado de Apito Encarnado não passa de uma manobra inspirada pela Direcção portista.

Mas, dito isto, também não entendo a consternação das vestais da «moral desportiva» com o facto de o procurador-geral da República ter decidido abrir um inquérito aos factos constantes do dito relatório. E, por várias razões. Primeiro, porque as acusações feitas são demasiado graves para que o procurador lhes passasse simplesmente uma esponja por cima. Segundo, porque é fácil de adivinhar que o inquérito concluirá que nada é verdade. E terceiro, porque, tendo o dr. Pinto Monteiro, acabado de entrar em funções, determinado a reabertura da instrução em processos arquivados contra Pinto da Costa, com base unicamente no livro de Carolina Salgado — (de que hoje não restam dúvidas de que foi inspirado, congeminado e escrito a mando de altos cérebros benfiquistas) — não se percebe como poderia ele mandar para o lixo este relatório, sob o argumento de que se tratava de uma simples manobra clubística.

Acontece que o relatório Apito Encarnado, sendo anónimo e provavelmente falso quanto à sua origem, não deixa, contudo, de colocar questões pertinentes, muitas das quais eu próprio aqui tenho colocado. Por exemplo (e são apenas alguns exemplos): por que razão umas escutas foram motivo de investigação e outras não? Por que razão dois jogos do FC Porto, sem qualquer importância nem influência no campeonato de então foram declarados suspeitos e outros muito mais importantes e decisivos o não foram? Por que razão o único crime provado com a obra literária da dª Carolina — a sua auto-incriminação nas agressões ao dr. Ricardo Bexiga — ainda não levou a que ela fosse constituída arguida, continuando antes a gozar do estatuto de testemunha privilegiada e com direito a protecção pessoal paga com o dinheiro dos meus impostos? Por que razão a dª Carolina — com o curriculum vitae e as motivações de vingança que se conhecem — é uma testemunha tão credível para a dra. Maria José Morgado, e a irmã, sem passado nem motivações correspondentes, é apenas uma difamadora, quando se atreve a vir a público desmentir a maninha?

5 - Sábado não estarei cá para ver o FC Porto-Sporting. Não vou fazer antevisões, mas vou deixar um desejo que muito vai irritar os sportinguistas, mas paciência: desejo que nenhuma decisão do árbitro determine o resultado. É que, independentemente de eu achar que o FC Porto jogou mal e perdeu por culpa própria os dois últimos confrontos com o Sporting, em ambos os jogos o resultado final foi influenciado por decisões de arbitragem. Na final da Supertaça, e por todos reconhecido, ficou por marcar um penalty contra o Sporting a castigar um desvio de Tonel com a mão. E, no jogo determinante do campeonato passado, no Dragão, o golo da vitória leonina resultou da conversão de um livre que não existiu, em contraste com o flagrante penalty cometido no último minuto por Polga e que Pedro Henriques, sob o síndroma Apito Dourado, não teve coragem de marcar.

Aliás, quem me segue, sabe que há muitos anos que eu tenho esta tese: no meio da eterna guerra Benfica-Porto, de Apito Dourado para aqui e Apito Encarnado para ali, quem tem verdadeiramente saído a ganhar é o Sporting. Sempre prontos a apresentarem-se como os «cavalheiros do futebol», sempre a protestar contra as arbitragens quando perdem e sempre calados quando são beneficiados, os sportinguistas têm sido, ano após ano, os contemplados com o maior número de erros favoráveis das arbitragens e sempre ajudados, quando jogam em Alvalade, por um caseirismo doentio dos árbitros, sob pressão das bancadas. Por isso é que, nos jogos internacionais, eles são sempre surpreendidos por arbitragens a que não estão habituados. Mas uma tese é uma tese — cada um pode ter a sua.
No jornal “A BOLA” de 2007.08.21