Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Entre Caminha e Cerveira fica um rio pintado a aguarela


A Goodyear foi passar um fim de semana em Caminha, Vila Praia de Âncora, Vilar de Mouros e Vila Nova de Cerveira. Conheça connosco a foz do Minho.

Com o Rio Minho a seus pés a marcar o limite da fronteira entre Portugal e Espanha, Caminha é mais antiga do que qualquer um destes dois países. Surpreendentemente, é vila moderna, com uma oferta de restauração e hotelaria sofisticada quanto baste para quem procura o conforto, mas tradicional e respeitosa do seu passado. A Goodyear foi passar um fim de semana entre Vila Praia de Âncora, Vilar de Mouros e Vila Nova de Cerveira, com base em Caminha, e ainda demos um salto à Galiza. Veja connosco o que se esconde no estuário do Rio Minho.
Se ninguém duvida que é uma das mais belas regiões portuguesas, é curioso pensar que o Minho deve o seu nome, afinal, à linha onde termina. A paisagem deixada pela passagem do rio fronteiriço é fabulosa e vale bem uma visita de fim de semana, à descoberta das margens que o acompanham desde Âncora até Cerveira. De um lado e do outro, terras de Portugal e Espanha, gentes do Minho e da Galiza. No meio da corrente, ao pé do Cotovelo de Mate, o cenário vasto e formoso das Ilhas dos Amores e da Boega, indício das terras de Gondorém, são inspiração para aguarelas e poemas.

Como ir e onde ficar em Caminha

Chega-se muito facilmente a Caminha através da A28 ou, a nossa opção preferida, pela N13, a estrada marginal que vem de Viana do Castelo, passando pela Areosa, Afife e Moledo, sempre perto do mar. É uma viagem que um dia relataremos aqui nos Quilómetros Que Contar, e que é uma excelente apresentação às paisagens do Minho Atlântico.
Perto da Galiza, num dos caminhos que vão dar a Santiago de Compostela, com a paisagem da Serra de Arga, do Oceano e do Rio a servirem de cartão de convite, a excelente gastronomia local e uma população mais jovem do que a que encontramos no Minho interior, a Caminha não faltam boas opções de locais onde ficar, desde o tradicional ao moderno e sofisticado. Passámos um fim de semana na vila no princípio de 2016 e ficámos no Caminha Design & Wine Hotel, convenientemente situado no centro e com um conceito muito moderno mas bem integrado na paisagem. A enoteca é uma boa apresentação aos prazeres dos Alvarinhos e Loureiros, os verdes do Alto Minho, há um spa e podemos ainda reservar aqui passeios de barco pelo rio ou alugar bicicletas de BTT para fazer uma visita de duas rodas a algumas das quintas produtoras locais.



Com a foz por companheira

Descansados da viagem, partimos para a descoberta da localidade. Caminha fica entalada entre os rios Minho e Coura, onde cresce desde tempos anteriores à nacionalidade. Cada rua, mansão, viela ou pedaço de muralha têm histórias para contar e o ponto privilegiado para vermos isto tudo é do alto da colina de Santo António, no miradouro. A vila deverá ter nascido a sul da colina, próxima do rio e com raízes piscatórias, mas cresceu em outras direcções, à medida que romanos, celtas e mouros se apropriaram do espaço e o moldaram à sua maneira.
O património monumental pode preencher totalmente uma visita a Caminha, com a Igreja Matriz, a Torre do Relógio, o Solar dos Pitas e o Forte da Insua a serem motivos tradicionais de visita, mas a vila tem uma movida muito própria e jovem que dá um perfeito sinal da vitalidade cultural da terra. Bares, discotecas e cafés crescem à volta da Rua Direita, enquanto uma clientela um pouco mais velha e elitista aproveita as esplanadas da Praia de Moledo. O Alfândega, o Isis, o Pra-lá-caminha e o Ruivo´s são locais que já visitámos no passado mas, se vier até aqui, pergunte aos locais porque bares e pubs são fenómenos sazonais o suficiente para a moda já ser outra passados apenas seis meses.



Do Atlântico ao coração da Arga

A foz do Minho precisa de, pelo menos, um fim de semana prolongado para a conhecermos mesmo que seja só de passagem. Agarrámos no carro e fomos até Vila Praia de Âncora, a face mais atlântica deste conjunto, onde mar, rio, longo areal, verdes campos e pinhais se compõem de forma deliciosa para receber as duras ondas destas águas. No vale do Âncora está o Dólmen da Barrosa e outros resquícios da ocupação desde o paleolítico, mas também a Idade Média está presente na pequena Ermida de S. Pedro, e o séc XVII ainda guarda a marca dos Fortes do Cão e da Lagarteira. Se quiser sentir a maresia, desça até à praia do Afife ou Moledo
Seguindo o rio para montante e passando Caminha, o encontro com Vilar de Mouros é um verdadeiro penetrar no coração da região. Este é um lugarejo pitoresco, de beleza rústica, pleno de caminhos entre os campos, moinhos e azenhas, com recantos silvestres onde encontramos as águas límpidas e sussurrantes da corrente. É uma paisagem minhota, verdadeira e genuína, com a influência da Serra de Arga bem forte, e nem parece que ainda há meia hora estávamos tão próximos do mar.

Do séc. XVIII ao futuro

Mais à frente cruzamo-nos com Lanhelas, onde a Casa dos Bacelares se ergue frente ao Minho e se mantém a tradição de servir solha assada aos romeiros que aqui se deslocam em honra do Senhor da Saúde. Em Gondarém deparamo-nos com os exemplos senhoriais do séc XVIII do Solar da Loureira e da Quinta do Outeiral, enquanto no meio do rio nasce a Ilha da Boega e a Ilha dos Amores. É um cenário idílico, que as gentes da terra aproveitam para pescar ao som dos rouxinóis, e que o forasteiro pode aproveitar com um passeio a pé pelo passadiço construído na margem.
A nossa última paragem deixa-nos em Vila Nova de Cerveira, localidade que entre um passado que remonta ao séc. XIV e o lento ritmo do rio que passa à sua frente, consegue manter-se moderna, inovadora e convidativa para uma pequena mas muito activa comunidade de designers, arquitectos, músicos e escritores que escolheram esta terra para viver. Ao longo de quase quatro décadas, a Bienal de Cerveira tem sido a face mais visível desta vanguarda artística e cultural e repete-se em 2016, com eventos agendados até ao princípio de Dezembro. É um dos momentos mais interessantes do calendário das artes nacionais e tem também o seu impacto mais a norte, na Galiza, onde consegue recrutar uma importante fatia do seu público.
Mesmo que não venha a Cerveira com a Bienal nos seus planos, a localidade é um dos pontos imperdíveis em qualquer roteiro do Alto Minho. A zona em frente ao rio é de paragem obrigatória e aconselhamos a sair do carro e a gastar alguns minutos em passeio pela calçada, com Espanha pela frente e os barcos de recreio ancorados. Daqui até à ponte, os reflexos da água, os sons dos pássaros e o verde que se debruça sobre o espelho são um verdadeiro retrato feito a pinceladas de aguarela. Num monte sobranceiro à vila, as ruínas de uma velha ermida ainda guardam histórias de mouras encantadas em grutas, e a magia dura aqui até hoje.

E ainda…

Na nossa opinião aqui na Goodyear, um fim de semana no Alto Minho não deve ser atafulhado com demasiados planos e objectivos. Mas se, mesmo assim, ainda quiser conhecer mais da região, uma das nossas estradas preferidas é a que segue na direção do Extremo, onde já muitos fãs do rock se fizeram ao caminho para chegar aos festivais de Vilar de Mouros e Paredes de Coura. A sul, Viana de Castelo é uma muito charmosa e luminosa cidade que nunca ficará completamente explorada. A norte, a Galiza é, infelizmente, uma região pouco conhecida da maioria dos portugueses e merecedora de toda a nossa atenção. Finalmente, e porque o Minho tem alguma da melhor gastronomia nacional, atreva-se a provar um arroz de cabidela ou uma papa de sarrabulho, feitas por quem sabe.

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