Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a corrupçao, o centralismo e colonialismo lisboeta!

Entrevista de Rui Moreira ao Diário de Notícias

20 de Abril de 2007
Diário de Notícias -Na prática, o FC Porto já é campeão?
Rui Moreira - Ainda não é, mas seria um escândalo que não fosse.

-Se falhasse o título, o FC Porto deveria despedir Jesualdo Ferreira?
- Seria compreensível mas não justo. As substituições dos treinadores servem para amansar as feras, não para serem justas.

Jesualdo é treinador para o FC Porto?
- É o treinador adequado para o FC Porto principalmente se houver uma aposta na formação tal como a direcção tem anunciado. Nesse caso, ele pode ter um papel crucial. Jesualdo Ferreira herdou, a poucas semanas do início do campeonato, uma equipa, tal como acontecera com Adriaanse. Gostava de voltar a ver um treinador do Porto formar uma equipa e treiná-la. Seria bom centrar no treinador, como acontecia no tempo de Mourinho, algumas decisões. Pessoas que hoje decidem contratações, no tempo de Mourinho dedicavam-se a jogar às cartas nos seus gabinetes.

- Quem?
- Não interessa personalizar.

- Falando em contratações, que jogadores dispensaria no final da época?
- Posso dizer aqueles que não dispensaria. E o primeiro nome é o do Quaresma. Entre Lucho, o Pepe ou o Quaresma escolho o Quaresma, pela enorme margem de progressão.

- Jesualdo surpreendeu-o pela positiva ou pela negativa?
- Quando ele saiu do Braga para o Boavista perguntei-lhe quando é que seria treinador do FC Porto. Acho que falta ao Jesualdo um título e acho que a partir do momento em que o ganhe terá uma outra afirmação. O Jesualdo é pouco afirmativo, um pouco cauteloso, mas este ano, em várias situações, mostrou muita coragem.

- Em que casos?
- Teve coragem de ser a única pessoa com bom senso durante o período de Inverno, quando todos os dias se falava de compras e vendas que não se verificaram. Quando ele teve a coragem de dizer que não conhecia Andrés Madrid, enviou uma grande mensagem para dentro do balneário. Foi importante em termos de coesão.

- Com o processo Apito Dourado Pinto da Costa deixou de comentar, por exemplo, as arbitragens, delegando no treinador. Hoje é difícil ser treinador do FC Porto?
- Tenho criticado os silêncios sucessivos e absolutamente incompreensíveis da SAD, que têm obrigado o treinador a alguma ginástica tanto mais que ele não gosta de apontar erros aos árbitros para não desresponsabilizar os seus jogadores.

- Pinto da Costa é um presidente diminuído…
- Não é só o presidente. Alguma coisa na SAD não está bem. Há uma sensação de que a SAD do FC Porto está assustada. Há factores externos que têm provocado isso e, nesse sentido, a direcção tem contado com a solidariedade dos adeptos que, como eu e até prova em contrário, acreditam que vão ser ilibados, mas o que é facto é que se comportam como se estivessem condicionados. E isso limita a capacidade de fazer o seu papel. E obriga o treinador a fazer mais do que a sua obrigação. A SAD e a direcção deixaram de ser um escudo efectivo.

- Pinto da Costa tem estado a prejudicar o FC Porto?
- Aqueles que lhe faziam sugestões ou críticas ou foram-se afastando ou foram afastados. A SAD do FC Porto é hoje muito centrada em Pinto da Costa e nas pessoas da sua confiança. Que ele deixou de desempenhar as tarefas tal como as desempenhava no passado, não tenho dúvida. Aceito até que ele não fale mas não compreendo que não tenha na SAD quem o faça. Agora, que há eleições, é bom tomar nota desse facto. Mas há problemas maiores.

- Quais?
- O problema da sustentabilidade do modelo que o FC Porto enquanto clube com a sua SAD. Desde as vendas para o Chelsea, o FC Porto passou a gerir um orçamento superior ao dos concorrentes directos. Tinha sido uma boa altura para arrumar a casa e criar um projecto. Isso não foi feito, e pior, em Outubro do ano passado tive acesso a contas muito preocupantes. Na altura ouvi a promessa de uma terapia de choque que passava pela aposta na formação, redução do investimento no plantel, diminuição dos custos salariais e reestruturação organizacional. Era uma cura tão necessária quanto dolorosa pelo que pensei ser essa a última dádiva do presidente Pinto da Costa ao clube. Porque ninguém, a não ser ele, conseguiria explicar aos adeptos a necessidade de anéis para não perder dedos. Mas nada foi feito.

- Sente-se enganado?
- Frustrado. Na altura assinei uma lista para a recandidatura de Pinto da Costa, convencido de que essa mudança iria ter início. Não teve.

- Há risco de o FC Porto perder o controlo da SAD?
- Esse é um risco iminente se não forem tomadas medidas de emagrecimento. A operação harmónio de que se fala, significa a redução do capital até um valor muito baixo para depois se aumentar o mesmo capital e com isso atrair novos investidores. Não me parece que o FC Porto, enquanto clube, tenha dinheiro para ocorrer a esse aumento de capital.

- Não gostava de ver um milionário comprar o FC Porto?
- Não. Até o modelo estar exausto a SAD deve pertencer aos portistas. Vender essa participação maioritária, vender jogadores por critérios unicamente de mais valia e, ainda mais perigoso, vender os direitos televisivos do futuro é pôr em perigo esse mesmo futuro.

- Apesar de frustrado, vai votar Pinto da Costa?
- Não vou votar porque normalmente não vou a assembleias gerais.

- Mas se votasse…
- Para se apresentar a mais três anos de mandato, Pinto da Costa deveria ter dito aos sócios não só que se impõe a tal terapia de choque como de que forma a tencionaria implementar. O clube tem uma dívida de gratidão com Pinto da Costa. Foram 25 anos excepcionais mas isso não justifica que se apresente a um novo mandato dizendo apenas que vai construir um gimnodesportivo.

- Vale e Azevedo foi preso quando perdeu as eleições no Benfica. Acha que Pinto da Costa ponderou esse dado nesta candidatura?
- Estou convencido de que Pinto da Costa vai ser ilibado. Não acredito que queira servir-se do clube. Julgo que ele continua a acreditar que faz falta ao clube até porque nunca escolheu um herdeiro.

- Vai ser oposição a Pinto da Costa nos próximos três anos?
- Oposição, nunca. Serei sempre um crítico leal e construtivo.

- Se fosse convidado para um cargo executivo, aceitava?
- Não. Porque no momento actual não interessa ser administrador.

- Quer entrar no FC Porto pela porta da presidência…
- Já disse que, como qualquer outro sócio, gostaria de ser presidente do FC Porto. Mas não estou a tratar paulatinamente disso. E só admitiria ser presidente caso entrasse pela porta do clube e este tivesse o domínio da SAD. Se o FC Porto passar a ser apenas um activo, não contem comigo.

- Vai ser candidato um dia?
- Sinceramente não sei.

- Gostou da forma como Mourinho deixou o FC Porto?
- Não. O FC Porto esqueceu-se que não teria sido campeão sem Mourinho e Mourinho esqueceu-se de que não seria campeão europeu sem o FC Porto. Foi constrangedor e mau para o clube. E os clubes são, também, feitos de símbolos. O FC Porto deveria ter continuado a olhar para Mourinho como um símbolo e vice-versa. E penso que ele deveria ter sido homenageado.

- A culpa foi de Pinto da Costa?
- Pinto da Costa deixou que fosse assim. Mas também li o que diz no seu livro. E acredito quando se refere à vontade de Mourinho deixar o FC Porto. E depois houve aquele incidente com as claques. Que abriu um precedente. A partir do momento em que fizeram aquilo ao Mourinho e não foi condenada, estava a ver-se o que mais tarde aconteceu com Co Adriaanse. Eu avisei.

- Pinto da Costa não controla as claques ou não quer controlar?
- O presidente nunca controlou esses acontecimentos. Não controla as claques nem devia controlar mas devia ter na SAD alguém que influenciasse o comportamento daquela gente.

- Continua sem ler o livro de Carolina Salgado?
- Sim, e até fiquei furioso pelo facto de um filho meu o ter comprado.

- Que justificação encontra para o facto de Pinto da Costa ter-se deixado ficar nas mãos de uma namorada?
Há mistérios inexplicáveis. Talvez por causa da entourage, ou pela própria solidão do poder. Há risco de nos rodearmos de cortesãos que nos induzem a cometer imprudências.

- Há alguma acusação do livro em que acredite?
- Pergunto-me se o livro foi feito por ela. Não tenho dúvida de que há alguma maquinação.

- A agressão ao vereador Bexiga é o episódio mais preocupante?
- É o mais preocupante mas também o mais inacreditável. Não percebo o que é que Pinto da Costa poderia ter contra o vereador Bexiga, que tem uma relação directa coma a Câmara de Valongo e não o FC Porto.


- Quando terminou a carreira, Jorge Costa disse que tem faltado mística à equipa do FC Porto. Concorda?
- O Jorge Costa foi maltratado pelo FC Porto e um dia isso vai ter de ser corrigido. Mas no último ano em que esteve no banco, em vez de fazer o que tem feito Vítor Baía, dizem-me que só levantou problemas. Por contraste julgo que o Baía tem sido o grande símbolo e através dele tem havido uma coligação de forças muito grande na equipa.

- Pelo que diz, acha que Vítor Baía pode vir a ter um papel no futuro do FC Porto?
- Não vai ser treinador do FC Porto como não vai ser um Eusébio do FC Porto. Estão-lhe reservados outros voos.

- Vítor Baía, Jorge Costa, Fernando Gomes e António Oliveira. Quatro ex-jogadores, quatro putativos candidatos à presidência?
-Vai ser muito difícil suceder a Pinto da Costa. Mas dos quatro que referiu aquele que tem carreira ímpar é o Vítor Baía. Na relação com os sócios, tem património superior aos outros. E é muito inteligente.

- Depois de Pinto da Costa defende um presidente de transição?
- Não vai haver tempo para isso. O FCPorto terá de escolher alguém diferente mas os sócios vão exigir provas de amor ao clube.

- Alexandre Magalhães é um candidato?
- Julgo que o tempo de Alexandre Magalhães já se perdeu.

- Daqui a três anos votaria em Vítor Baía?
- Se tudo correr bem, daqui a uns anos, Vítor Baía vai ser presidente. O próprio Pinto da Costa já admitiu esse cenário.

In Diário de Notícias

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