Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

As mentiras de Rui Rio

Não há dúvida que Rui Rio tem sido hábil ao projectar no país uma imagem de desafio aos poderes fácticos da cidade do Porto. Porém, para quem acompanha a realidade política local, nada é mais falso. No que diz respeito à cultura, o discurso de menorização e asfixia dos agentes locais insere-se na hipotética ruptura com a «subsidiodependência» e de implosão de espectáculos que supostamente não têm públicos. Sucede que isso é contrário à verdade e é pena que algumas pessoas o aceitem sem confrontar os dados existentes. De resto, a cultura tem sido um autêntico bode expiatório para o atestado de óbito que a gestão de Rui Rio tem passado ao Porto. O urbanismo e a acção social, duas das suas bandeiras, são uma ficção. E quem vive no Porto nota a diferença dos últimos anos, com toda esta falta de dinamismo, de esperança, de mobilização.

Antes de mais, tudo começa por questão de opção política. É uma opção política investir ou não num pelouro da cultura forte, como aconteceu com Manuela Melo durante os executivos de Fernando Gomes, tal como é uma opção política investir em corridas de automóveis como um paradigma cultural com Rui Rio. Salvaguardar isso com critérios económicos é totalmente demagógico, porque as estatísticas dizem exactamente o oposto. E, para além disso, as valências de um equipamento como o Rivoli têm um papel fortíssimo no âmbito da formação de públicos e de pluralidade cultural que é mutilada com toda esta acidez populista.

As poucas estruturas culturais de vulto que permanecem na cidade só assim se mantêm porque estão no universo do Ministério da Cultura e não da CMP. Porque para além do Rivoli, certamente o mais mediático, recordo que a desconfiança -- a perseguição? -- de Rui Rio em relação à produção cultural da cidade já teve muitos outros episódios: o FantasPorto e a Feira do Livro do Porto ameaçaram uma transferência para Gaia, a direcção do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica) anunciou que o festival deixará de ocorrer no Porto por bloqueios da autarquia, a Árvore denunciou a violação de acordos estabelecidos, a Seiva Trupe diz que a política da câmara para o Teatro do Campo Alegre provoca um subaproveitamento dos espaços e afasta as companhias por causa dos elevados preços do aluguer da sala, a Casa Cinema Manoel de Oliveira está estagnada e a placa identificadora na porta já foi retirada, vários galeristas de Miguel Bombarda já optam por Lisboa devido à ausência de uma política camarária para a zona e, de uma forma geral, a asfixia alastra a todos os sectores: a total incapacidade de articular qualquer acção consequente com a Universidade do Porto é simplesmente uma outra face da mesma moeda.

Mas vejamos a audiência do Rivoli e as mentiras da câmara. Segundo o Jornal de Notícias,
entre 2001 e 2005, o teatro nunca teve menos de 126 mil espectadores. Ou seja, contrariamente à propaganda camarária, a média foi de 345 espectadores diários em 2002 e 500 em 2005: por dia, repito. Mais ainda, e citando o JN, ficamos a saber alguns dados por espectáculo:

«(...) Em Março de 2003, por exemplo, o Plástico apresentou a peça "XY", tendo obtido 461 espectadores em cinco sessões. A leitura do programa apresentado no período referido não permite demonstrar os propalados baixos níveis de audiência, mas revela que entrega do Rivoli a um único produtor implica a perda da diversidade cultural que, até então, foi ali apresentada.

A dança contemporânea perde o palco. Em 2003, a coreografia "Quebra-Nozes", do Centro de Dança do Porto, vendeu, em dois dias, 1710 bilhetes. O Novo Circo, referência do Rivoli, perde também o espaço. A companhia francesa "Compagnie du Singulier" ganhou uma plateia de 426 espectadores. No jazz, Chick Corea, que recentemente esgotou o auditório da Casa da Música, esteve há quatro anos no Teatro Municipal. Sobraram dois lugares. O FIMP, Festival de Marionetas, superou os mil bilhetes vendidos. (...)»

Mas mais interessante será constatar que os prejuízos do Rivoli vieram -- oh, pasmem-se só um pouco -- com Rui Rio. Os relatórios de contas existem para quem os queira consultar, o Manuel Jorge Marmelo já os noticiou na imprensa e importa salientar três pontos:

  1. Em 2002, já com Rio mas com um orçamento feito por Manuela Melo, o Rivoli teve quase um milhão de euros de resultado positivo.
  2. Entre 2001 e 2005, os resultados da bilheteira do Rivoli cresceram continuamente, não obstante o desinvestimento da autarquia.
  3. Rui Rio disse que ia «poupar» 10,9 milhões em quatro anos com a privatização do Rivoli mais os espectáculos patuscos do senhor La Féria. Acontece que esse valor corresponde ao total da verba atribuída à Culturporto em quatro anos (2001-2005), o que inclui não só o Rivoli como toda a animação da cidade. E esse dinheiro é agora transferido para a Porto Lazer, uma empresa que serviu para acomodar os seus correligionários certamente esquecidos na «moralização» das contas da autarquia.

Sobre este último ponto, aliás, relembro que quando Rio Rio criou a Porto Lazer afirmou que todas as pessoas da Culturporto transitiriam para a nova estrutura, «à excepção das que não gostam de trabalhar». Isto não só é inacreditável, como traduz toda a dimensão de um populista rasteiro. Rui Rio tem uma visão pequena e provinciana desta cidade e o vereador que está no pelouro da cultura -- alguém sabe dizer-me o nome sem consultar? -- deveria ter a dignidade para o extinguir. Para se extinguir. Porque de uma forma ou de outra, no meio das variedades em que a cultura do Porto tem vindo a transformar-se, já nos tentaram fazer passar por palhaços. É a vez deles.

via KONTRATEMPOS


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