Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

O dia em que se começou a circular pela direita em Portugal


Das quadrigas romanas às pelejas medievais, até aos roadsters ingleses de volante à direita. Essa extravagância de andar do lado errado da estrada. Não se desse o caso de  Napoleão ser canhoto e nós também andávamos.
Uma das coisas boas de trabalhar no Motor24, o novo projeto para a mobilidade da Global Media, é ter acesso ao vasto arquivo do Diário de Notícias.
Está tudo aqui à distância de um clique, 132 anos de história de Portugal e do mundo, contadas nas páginas do matutino fundado em 1864 pelo jornalista e escritor Eduardo Coelho e pelo industrial tipográfico, Tomás Quintino, conde de S. Marçal.
O intelectual e o capitalista, uma associação clássica que infelizmente parece ter caído em desuso, em favor da misteriosa figura do empreendedor.
Basta pesquisar por palavras-chave e perder-me nos labirintos que a curiosidade vai desenhando e que me levam numa autêntica viagem no tempo. Vadiagem que farei com a regularidade que a ditadura desse tempo me permitir, nesta coluna chamada precisamente “Espírito do Tempo”, que pode até parecer um slogan de uma marca de relógios (aí está uma ideia ao cuidado do departamento comercial), mas é apenas o ponteiro alinhado para as histórias que marcam o espírito do tempo, aquilo que os alemães definem como zeitgeist. 
O espírito de um tempo passado, o do que corre sobre a espuma dos dias e um tempo do futuro, essa fascinante aventura de ciência, conhecimento e também de angústia que sempre nos reserva o desconhecido.
A viagem de hoje na máquina do tempo leva-nos até ao dia 1 de Junho de 1928. Naquele dia, a partir das 5.00h da manhã, a circulação nas estradas em Portugal passou a fazer-se pela direita. Nesse dia vingamos definitivamente o ultimato inglês e mudamos para um costume napoleónico.
A regra napoleónica
O arquivo do DN é generoso na matéria que marcou a vida dos portugueses há 88 anos e que inevitavelmente provocou reações inflamadas e forte resistência à mudança.
A razão é simples. O DN, como jornal pioneiro naquilo que hoje se chama marketing editorial, organizou com o patrocínio da Vacuum Oil uma grande campanha nacional de sensibilização, espalhando cartazes e faixas por todo o país, além de dedicar grande destaque nas suas páginas às novas regras de trânsito.
A decisão do governo visava uniformizar a circulação com a dos países da Europa continental, deixando apenas uma das colónias com o antigo costume em vigor — Moçambique. Isto porque aquele país lusófono parecia uma ilha, rodeada de colónias inglesas por todo o lado.
Os ingleses e alguns países da Comonwealth, esses permaneceriam orgulhosamente fiéis ao seu ancestral costume, que rezam as crónicas, remonta ao Império romano, época em que se fizeram as primeiras regras de trânsito nas muitas vezes congestionadas vias romanas.
Circular pela esquerda era uma necessidade imperial para os soldados manterem a mão direita livre para empunhar o gládio. Mais tarde, na Idade Média, as vantagens desta regra continuavam a ser de ordem ergonómica e bélica.
A mão esquerda ficava encarregue das rédeas dos cavalos e a direita era para empunhar as lanças ou as espadas em batalha ou torneios medievais. Com a introdução de carruagens e charretes nas grandes cidades, o chicote era brandido com a mão direita, evitando assim que os incautos peões pudessem ser atingidos por uma fustigada mal medida.
Era assim até Napoleão e as suas tropas meterem botas a caminho à conquista da Europa. As razões para que Napoleão tenha introduzido a circulação pela direita e que tenha deixado esse “legado” ao mundo são explicadas por alguns historiadores:
1º Napoleão queria mudar tudo, não deixar nada da velha ordem.
2º O imperador francês era canhoto.
A “regra” napoleónica acabou por vingar e alastrar sendo atualmente adotada, segundo a ONU, em 129 países do mundo. Quem não foi na conversa do canhoto foi a Inglaterra e mais 62 países do mundo, que continuam a preferir o velho costume do mundo greco-romano.
Agora quando entrar em contramão numa rotunda em Londres, já sabe porque é que os britânicos teimam nessa absurda extravagância.
Curiosamente, esta semana a Audi anunciou um novo e revolucionário sistema que vai facilitar a vida no trânsito, quer para quem circula à direita, quer para quem circula à esquerda. Trata-se de um sistema de comunicação integrada do automóvel com os semáforos que permite ao condutor saber antecipadamente quando é que o sinal vai ficar verde.
Esta tecnologia vai reduzir a poluição sonora em Lisboa e no Porto, cidades onde há sempre um taxista ou um apressadinho que tem a buzina do seu carro sincronizada com o semáforo.  [daqui, em Dezembro de 2016]

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