Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Miguel Sousa Tavares: Voltaram as dores de cotovelo


Jesualdo Ferreira fica a saber que é muito mais difícil triunfar no FC Porto do que por outras paragens.E, se já era difícil antes, agora, com o «factor Carolina», vai ser bem mais.



Sexta-feira à noite, eu estava fora e, para dizer a verdade, nem sequer me lembrei que o FC Porto jogava em Leiria. Por volta da meia-noite recebi uma mensagem de um amigo benfiquista: «Já nem à equipa B conseguem ganhar…Vá lá que perderam só por 1-0.» Foi assim que fiquei a saber do desastre de Leiria. O resto, os pormenores, só fiquei a saber três dias depois. E concluí que, manifestamente, o meu amigo benfiquista tinha feito um relato muito particular e resumido dos acontecimentos de Leiria. Por junto, a única coisa incontroversa é que o Porto tinha perdido 1-0.

Desde logo, a piada da «equipa B», reflectindo aquilo que é a atitude de vida dos benfiquistas, hoje em dia: eles desconfiam de tudo, tudo o que mexe. Treinado pela antiga glória portista Domingos Paciência (ai, que saudades!), com dois ou três jogadores emprestados pelo FC Porto, está bom de ver que outra coisa não era de esperar do que o Leiria facilitar a vida ao FC Porto. Azar o deles: o Leiria ganhou, Paulo Machado foi dos melhores em campo e Ivanildo marcou de forma perfeita o livre que ditou o resultado. Satisfeitos? Não, na próxima oportunidade voltarão a desconfiar. A semana passada, aliás, tive ocasião de ler um texto benfiquista onde, em todo o seu esplendor, se explicava como é que tudo serve para desconfiar. A propósito da expulsão do leiriense Harrison no jogo da Taça contra o Benfica, dizia-se que ele, claro, tinha sido bem expulso. Mas, ao mesmo tempo, levantava-se a suspeição: é que, tendo sido expulso, ele não iria poder jogar o jogo seguinte. E, contra quem era o jogo seguinte? Contra o Porto — estão a ver, não estão?

A mensagem do meu amigo pecava, a seguir, por deformação jornalística: «Perderam só por 1-0.» O «só» dava a entender que poderiam ter sido mais. Mas o visionamento do jogo e os comentários lidos, afinal, revelaram uma coisa bem diferente: o União de Leiria não teve mais nenhuma ocasião de golo, marcou através de um livre inexistente e o FC Porto atirou três bolas à trave, viu um penalty perdoado ao Leiria e jogou meio jogo com um a menos. Detalhes.

Enfim, faltava, obviamente, dizer o principal: o FC Porto não jogou só em inferioridade numérica toda a segunda parte, jogou o jogo inteiro, porque aos onze de Leiria juntaram-se mais duas adjacências insulares, verdadeiramente decisivas para o desfecho final. O FC Porto já tinha sido prejudicado pela arbitragem várias vezes esta época, mas sempre havia conseguido superar esse obstáculo e sair vencedor. A novidade em Leiria, é que foram coisas de mais e todas juntas fizeram o resultado. Salvo o devido respeito pelo União de Leiria, o FC Porto não foi vencido pela equipa de Domingos: foi vencido pela dupla Elmano Santos-Sérgio Lacroix.

Dos dois penalties reclamados pelos portistas, um aceito que não tenha existido ou tenha sido duvidoso. O outro foi claro, embora subtil, mas de frente para o árbitro: uma mãozinha marota que corta deliberadamente um remate com destino a golo. Há um offside arrancado a Postiga que é bem claro que não existe e, sem o qual, ele ficaria frente a frente com o guarda-redes. No livre que dá o golo único ao Leiria, pese às sentenças catedráticas do sr. Coroado e passadas e repassadas as imagens as vezes que se quiserem, não há hipótese de descortinar qualquer falta, ou sequer contacto, do Pepe sobre o avançado leiriense. E há, enfim, a expulsão do Quaresma, que é determinante para o resultado: a partir daí, o Porto não ficou apenas com um jogador a menos, ficou com o Quaresma a menos, o que faz toda a diferença.

Sobre a expulsão do Quaresma, li e ouvi todo o tipo de opiniões: que sim, que não, que talvez. Antes de dizer qual é a minha, não posso deixar de fazer notar duas coisas. Uma é que a moda da perseguição às cotoveladas, viveu-se intensamente há três anos e custou ao FC Porto um campeonato, quando o Deco e o McCarthy passaram uma infinidade de jogos de fora devido a cotoveladas, reais ou supostas. Foi uma época em que se achou absolutamente normal acreditar que só os jogadores do FC Porto é que tinham cotovelos. Passada essa moda, e depois de os jogadores portistas terem sido instruídos para evitarem tudo o que, de perto ou de longe, se pudesse assemelhar a uma cotovelada, as cotoveladas desapareceram misteriosamente do futebol português: o Costinha chegou a sair do campo em semicoma, com traumatismo craniano, o Quaresma saiu de maxilar fracturado e nada aconteceu aos cotovelos alheios. Mas eis que agora, com o FC Porto na liderança com oito pontos de avanço, regressam as cotoveladas. E pela mão do bandeirinha Sérgio Lacroix, que parece ter-se especializado em detectar cotoveladas ao Ricardo Quaresma.

A segunda coisa que queria fazer notar é a ironia da situação: o Ricardo Quaresma, justamente porque é o mais brilhante jogador do campeonato, é também o mais massacrado com faltas dos adversários. Há jogos em que chega a ser revoltante assistir à passividade dos árbitros perante o massacre estratégico a que ele é sujeito, não apenas para bloquear o seu génio, mas também para o desgastar fisicamente e intimidá-lo. Pois foi precisamente o Ricardo Quaresma que o sr. Lacroix resolveu escolher exuberantemente para exemplo de má conduta disciplinar. E, cúmulo da ironia, ele, a quem Tixier tinha fracturado o maxilar no jogo da 1.ª volta, sem sequer ter visto um amarelo, acaba expulso agora, com um vermelho directo, por suposta agressão ao mesmo Tixier. Há coincidências fantásticas!

Mas, enfim, agrediu ou foi sem querer— qual é a minha opinião? Estou no meio termo: nem acho que tenha havido agressão, nem acho que tenha sido involuntário. Vista e revista diversas vezes a jogada, concluí isto: primeiro, que ele mandou uma braçada para trás, com intenção de atingir o adversário; segundo, que o movimento do braço, aberto, não é de cotovelada nem é com o cotovelo que atinge Tixier, mas sim com as costas da mão; terceiro, que, obviamente, tal gesto não justificou o espalhafato de Tixier, rebolando-se no chão como se tivesse sido atingido com um tiro de uma Magnum entre os olhos; quarto, que Quaresma não quer agredir o adversário, nem sequer o está a ver quando faz o gesto, quer apenas soltar-se de quem o está a agarrar pela camisola, impedindo-o de jogar; e quinto, que, de toda a gente presente no estádio, o único que não estava em situação de ver o lance de frente e desimpedido era justamente o sr. Lacroix, que tinha os dois jogadores de costas para si e engalfinhados um no outro. Mas o sr. Lacroix podia e devia ter visto o Tixier a agarrar a camisola a Quaresma e, se tivesse assinalado a falta, nada mais teria sucedido. O que se torna incompreensível é que num lance em que, no máximo, haveria lugar à mostragem de um amarelo, o árbitro aceite a indicação do seu bandeirinha e nem hesite em mostrar o vermelho directo a um jogador por uma jogada em que ele, árbitro, de frente, nada viu, e o bandeirinha, tapado, é que jura ter visto tudo. E fazê-lo, sabendo que, com isso, poderia estar a decidir o jogo, como sucedeu.

Razão teve Jesualdo Ferreira para, no final, quebrar pela primeira vez o seu absoluto silêncio sobre arbitragens (aliás, extensivo a qualquer elemento do FC Porto). Mas agora o professor ficou a saber do que a casa gasta. Irá descobrir, como tantos antes dele, que uns têm a má fama e outros o proveito. E que é muito mais difícil triunfar no FC Porto do que por outras paragens.

E, se já era difícil antes, agora, com o «factor Carolina», vai ser bem mais.
Ai do árbitro que doravante se atreva a, na dúvida, não decidir contra o FC Porto: arrisca-se a passar logo a suspeito do próximo best-seller literário-processual!

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